terça-feira, 1 de julho de 2008

E as tubulações alheias.


Um esboço de sorriso se formou, como fenda que se abre na terra seca, mas insólita. A escuridão da noite que avançando já ia, passava pelos portais das janelas, escurecendo mais ainda o que à escuridão foi destinado.
Lá ninguém perceberia a rachadura distinta.

A ardência, provocada pelo mármore polido dos degraus, penetrava pela sola dos pés desnudos.
Esqueçam os olhos, a tudo o breu engole. Não esqueçam as lágrimas
Apenas as experiências sensoriais foram exploradas.
Primeiro, o roçar do tecido leve entre as pernas. Macio, que no toque inicial proporciona um frescor gélido de exposição prolongada à brisa marítima. Esse roçar o impulsionava a andar.

Não andou.

Tentava dominar aquele frio vindo de baixo. Tentava aquecê-lo, mas ele, persistente, só fazia esfriar mais, em uma batalha silenciosa.

O frio já envolvia seus pés. A ardência tornou-se anestésico.

Acompanhado daquelas pesadas borboletas esvoaçando suas asas pelo ventre. São sempre as mesmas, no ventre dos amantes e dos que ficaram para trás.

Pensava se agora, suas mãos rígidas, não teriam já se tornado no mármore invencível. Penalidade que fosse, por terem percorrido calores tão mais ardentes. Os calores da pele bruta, aquele calor que difere dos outros tantos calores de outras tantas peles. Os calores Daquela pele bruta.
Sabia que esse calor, pele, roçar, sorriso, olhos, encontravam-se ali, pouco abaixo. Mas seus pés já haviam se colado ao verniz do mármore, não venceria mais aqueles poucos degraus, não avançaria mais pela porta de madeira escura, intrometendo sua cópia da chave, artefato este que havia dito estar perdido e que na verdade perdia-se no fundo de uma gaveta, esperando o momento último de desespero. Também não falaria, não gritaria muito menos choraria.
Nesse ponto ria. E como ria!
O saguão ecoou. O silencio voltou.
Estremeceu.

sábado, 21 de junho de 2008

o quarto e o corredor.

Quando abriu os olhos, percebeu que corria. Dono dos seus pés que era, espantou-se ao ver pelo seus olhos as imagens voando, borrando, sobrepondo-se. Achou que havia acordado em um sonho estranho, algum desses em que o subconsciente resolve exprimir o máximo de sua criatividade & angústia.
Mas o peito ofegava, arfante, o vento cruzava o seu rosto, esfriando seu nariz, suas orelhas.
Por um instante, e apenas um instante, perguntou-se se não deveria tentar parar, impedir o avanço destas pernas tão rebeldes.
Mas o instante passou com essa mesma idéia de rebeldia o assustando. Teve medo de interfirir.
Pegou-se tentando encarar aquilo com prazer, com naturalidade, como passeio que fosse. Mas já concluíra que seu corpo estava mesmo em revolta, ele que tentava poupar ao máximo os movimentos, seus músculos pequenos, mas ainda assim fortes o suficiente para contestar essa falta de mobilidade. Começaram as dores e ardências, penalizando a infração que era correr tanto.
Sentiu-se irreconhecível. O que será que havia acontecido com o seu eu?
Os edifícios passavam ligeiros, efêmeros.
Será que teria ficado para trás, como alma que se desprende do corpo, por este ter ido muito à frente?
Já estava tão longe...
Será que havia esquecido de acordar?
Sabemos que agora ele já nem sabia como era estar inerte, a paralisia ficou para trás (quem sabe com a sua alma paralítica). Mentira, via que essa movimentação era mais uma forma de paralisia.
Enfim esqueceu-se, habituou-se.
Enfim corria.

E correu.

segunda-feira, 26 de maio de 2008

queria eu ter uma varinha.

apesar do pobre coitado não ter nada a ver com a história, sinto vontade de feri-lo.
quem sabe tocar em uma ferida velha, aquela que bem sei eu! ah, seria ótimo perguntar de forma impertinente sobre aquela marca ali, tão aparente, aquela alí ó, não adianta esconder!
poderia fazer isso de modo lento, começando como quem nao quer nada, e ZAP!
como estou sádico.
mas... ele não tem culpa de nada, o coitado, vítima.

como sou sujo.

tentaria justificar a minha sujeira, dizer que aquele encardido ali foi deixado por tal pessoa no caminho da vida.
mas estaria me enganando. nao me limpo por que nao quero, por que é mais comodo assim. sou o ser do comodismo.

na verdade, chama-se a isso cano de escape.
minhas idéias de tão idealizadas estão no pedestal mais alto, não podem mais ser feridas nem escutar os meus desaforos de indignação.
resta-me mesmo é descontar a raiva nos coitados.



engraçado como sempre que escrevo aqui, parece que estou tendo déjà-vus. acabei de ter um.

terça-feira, 13 de maio de 2008

ensaio

PRIMEIRO ATO

Ambiente hindu-budista, incensos, almofadas coloridas e tecidos estampados pelo chão.

Bolinhas de sabão pairam pelo ar.

Há uma bacia rasa e discreta, com água e sabão, e um arame em circuferência grande com haste, para fazer bolas de sabão maiores, logo a frente das almofadas.
Não se sabe a hora nem o local exato. (Macro-rubrica)

Cena 1

Hippie.

Hippie:
Sentado nas almofadas, em frente a bacia rasa. Ainda sentado levanta a cabeça sem pressa. (Rubrica objetiva)

Expressão de paz filosófica:
(Rubrica subjetiva)
Eu sempre gostei de bolhinhas de sabão...


Brinca com as bolhinhas.
(Rubrica objetiva)

Olhar vago: (Rubrica subjetiva)
Tão puras... São só de água e sabão.
Tão coloridas... Mesmo assim, translúcidas, transparentes, como se fossem mesmo lúcidas.
Levanta-se, pega o arame em circunferência, mergulha na água e, rodando no ar, faz uma bola maior que as outras. Assiste ela tomando forma e logo depois estourar. (Rubrica objetiva)
Volta a si: (Rubrica subjetiva)
Se você se esforçar pode encontrar o sentido da vida em cada detalhe, como naquela bolha de sabão tão efêmera.
Elas são como o mundo, a natureza e a vida em sua essência!
No começo pode até parecer turbulenta e disforme. Mas é só parar para observarmos mais de perto e aquietarmos os ventos da vida que ela assume sua forma plena, infinita, com seus redemoinhos de cores.
Todo esse equilíbrio, essa plenitude pode lhe parecer até simplório. Afinal, isso é apenas água e sabão.
Mas a vida também é assim, e é assim como eu a encaro e a aceito, obviamente, não apenas de água e sabão, mas apenas de PAZ e AMOR.




Alguma música do musical Hair começa a tocar... (Macro-rubrica)

quinta-feira, 8 de maio de 2008

Essa pobreza de espírito.