Hoje, em homenagem a ti, saí do meu quarto escuro e cheio de lembranças. E cheio de lembranças fui para a loja de perfumes mais próxima, reavivá-las. Procurava por teu cheiro engarrafado em álcool, fixador e alguma mistura sublime de fragrâncias. Sabes muito bem que sempre fui muito ligado ao sensorial e meu olfato emenda as mais lindas ou obscuras sinápses de lembranças. Aquelas que esquecemos inconscientemente pelo simples fato da emoção ser tão grande que pode chegar a causar traumas.
Você foi um trauma.
Assim que encontrei o que queria, me vi criando um hábito. Já havia estado naquele mesmo local, em frente a mesma estante, olhando com uma mescla de sentimentos para o frasco meio vazio de pedaços de você.
Sempre hesitante borrifo um pouco no peito da mão esquerda e milhões de pequenos fragmentos momentos beijos gozos brigas silêncios e limões se espalham pela atmosfera impessoal da loja e impregnam-se na minha pele. Aí, sacudo levemente a mão, suspendendo você pelo ar, suspendendo o momento de te inalar e por alguns instantes (longos instantes) ser nocauteado por turbilhões de sentimentos subjetivos, celestiais, aquelas sensações que roubam o seu estômago e nao deixam vestígios de palavras na altura da boca. Me faltam palavras na boca.
De cinco em cinco minutos visito o seu corpo, percorro a vastidão do seu peito e chego ao pé dos vales sensíveis do seu pescoço, onde riachos deste cheiro transbordam, devastando-me e deixando marcas permanentes de você.
É engraçado o único resquício de intimidade com você ser este cheiro que chega ao fim. Não acredito que já te conheci tão bem a ponto de acreditar.
domingo, 5 de outubro de 2008
segunda-feira, 29 de setembro de 2008
A Prostituta
Entre um coração disparado e outro cigarro, observo esta meia calça levemente abaixada, timidamente despida, florindo um buquê robusto diante de meus olhos quase opacos, quase ocos.
Escarro nessa cara negra de puta, rasgo os 60, os 80 fios já puidos que agora mesmo se deitavam sobre os pés ossudos e quase masculinos da mulher.
Ela me olha assustada, sem entender a mudança que ocorreu em seu rosto, de prazer transformado em medo.
Esse mesmo medo é o meu prazer e gozo. Gozo aromas sujos e quimicamente pesados, lembrando almoxarifados hospitalares.
Pego a meia-calça em frangalhos. Uma espécie de souvenir que vai se juntar a uma coleção freak.
Ela se exprime contra a parede e ensaia um ponta-pé. Deixo o dinheiro sobre a cama e saio.
Saio para a noite leve de primavera, infantil, soprando uma brisa doce, despindo o ardor das damas-da-noite.
Escarro nessa cara negra de puta, rasgo os 60, os 80 fios já puidos que agora mesmo se deitavam sobre os pés ossudos e quase masculinos da mulher.
Ela me olha assustada, sem entender a mudança que ocorreu em seu rosto, de prazer transformado em medo.
Esse mesmo medo é o meu prazer e gozo. Gozo aromas sujos e quimicamente pesados, lembrando almoxarifados hospitalares.
Pego a meia-calça em frangalhos. Uma espécie de souvenir que vai se juntar a uma coleção freak.
Ela se exprime contra a parede e ensaia um ponta-pé. Deixo o dinheiro sobre a cama e saio.
Saio para a noite leve de primavera, infantil, soprando uma brisa doce, despindo o ardor das damas-da-noite.
segunda-feira, 15 de setembro de 2008
sábado, 16 de agosto de 2008
um sábado
Mesmo com o esforço das pás deste ventilador o ar continua imóvel, denso, quente, úmido.
Ele está logo ali, em meio aos lençois e um pouco de suor. Parece não reconhecer sua cama. Parece haver um desconforto maior.
Cheguemos mais perto para ver o que acontece.
Ah! Apenas uma batalha comum, paixão e medo.
Ele acha que é amor dessa vez, que nao vai cansar dessa vez, nem vai se decepcionar dessa vez, ou se irritar dessa vez.
Porém, por vez ou outra se dá conta dos perigos e da sujeira do mundo e das pessoas. Não sendo suficiente, logo cai no lirismo outra vez e retoma sua barca que navega por entre orquídeas brancas e vermelhas.
Agora treme. Parece febril. Há sede nestes corpos.
A campainha toca.
Levanta-se e abre a porta, portando apenas sua roupa de baixo branca.
Quem quer que fosse, se fosse importante, nao se importaria. A sede faz os corpos delirarem!
Ele pensou em falar. E quando inspirou, não havia ninguém.
Estava louco sujo acordado excitado debaixo daqueles lençóis frios quentes.
Voltou para a cama.
Dessa vez pensava nas pessoas que queria que estivessem lá, paradas, emolduradas pela sua porta. Não achou ninguém a não ser... enfim, nunca tocaria sua campainha mesmo. Percebeu que não tinha lógica em atender aos chamados do mundo lá fora, afinal o tal mundo ingrato só lhe trazia o calor enjoativo da estação.
[...]
Não havia por que permanecer alí.
Despiu-se por completo e deitou-se no chão gelado, acolhedor e laminado.
Percebeu que estava perdendo muitos pelos por que, puta merda, aquele chão estava imundo com tantos fios soltos, em vários formatos e tamanhos e espessuras tendo em comum o único fato de serem negros.
A campainha tocou pois cansei dessa ladainha.
Ele está logo ali, em meio aos lençois e um pouco de suor. Parece não reconhecer sua cama. Parece haver um desconforto maior.
Cheguemos mais perto para ver o que acontece.
Ah! Apenas uma batalha comum, paixão e medo.
Ele acha que é amor dessa vez, que nao vai cansar dessa vez, nem vai se decepcionar dessa vez, ou se irritar dessa vez.
Porém, por vez ou outra se dá conta dos perigos e da sujeira do mundo e das pessoas. Não sendo suficiente, logo cai no lirismo outra vez e retoma sua barca que navega por entre orquídeas brancas e vermelhas.
Agora treme. Parece febril. Há sede nestes corpos.
A campainha toca.
Levanta-se e abre a porta, portando apenas sua roupa de baixo branca.
Quem quer que fosse, se fosse importante, nao se importaria. A sede faz os corpos delirarem!
Ele pensou em falar. E quando inspirou, não havia ninguém.
Estava louco sujo acordado excitado debaixo daqueles lençóis frios quentes.
Voltou para a cama.
Dessa vez pensava nas pessoas que queria que estivessem lá, paradas, emolduradas pela sua porta. Não achou ninguém a não ser... enfim, nunca tocaria sua campainha mesmo. Percebeu que não tinha lógica em atender aos chamados do mundo lá fora, afinal o tal mundo ingrato só lhe trazia o calor enjoativo da estação.
[...]
Não havia por que permanecer alí.
Despiu-se por completo e deitou-se no chão gelado, acolhedor e laminado.
Percebeu que estava perdendo muitos pelos por que, puta merda, aquele chão estava imundo com tantos fios soltos, em vários formatos e tamanhos e espessuras tendo em comum o único fato de serem negros.
A campainha tocou pois cansei dessa ladainha.
terça-feira, 1 de julho de 2008
E as tubulações alheias.
Um esboço de sorriso se formou, como fenda que se abre na terra seca, mas insólita. A escuridão da noite que avançando já ia, passava pelos portais das janelas, escurecendo mais ainda o que à escuridão foi destinado.
Lá ninguém perceberia a rachadura distinta.
Lá ninguém perceberia a rachadura distinta.
A ardência, provocada pelo mármore polido dos degraus, penetrava pela sola dos pés desnudos.
Esqueçam os olhos, a tudo o breu engole. Não esqueçam as lágrimas
Apenas as experiências sensoriais foram exploradas.
Primeiro, o roçar do tecido leve entre as pernas. Macio, que no toque inicial proporciona um frescor gélido de exposição prolongada à brisa marítima. Esse roçar o impulsionava a andar.
Não andou.
Tentava dominar aquele frio vindo de baixo. Tentava aquecê-lo, mas ele, persistente, só fazia esfriar mais, em uma batalha silenciosa.
O frio já envolvia seus pés. A ardência tornou-se anestésico.
Acompanhado daquelas pesadas borboletas esvoaçando suas asas pelo ventre. São sempre as mesmas, no ventre dos amantes e dos que ficaram para trás.
Pensava se agora, suas mãos rígidas, não teriam já se tornado no mármore invencível. Penalidade que fosse, por terem percorrido calores tão mais ardentes. Os calores da pele bruta, aquele calor que difere dos outros tantos calores de outras tantas peles. Os calores Daquela pele bruta.
Esqueçam os olhos, a tudo o breu engole. Não esqueçam as lágrimas
Apenas as experiências sensoriais foram exploradas.
Primeiro, o roçar do tecido leve entre as pernas. Macio, que no toque inicial proporciona um frescor gélido de exposição prolongada à brisa marítima. Esse roçar o impulsionava a andar.
Não andou.
Tentava dominar aquele frio vindo de baixo. Tentava aquecê-lo, mas ele, persistente, só fazia esfriar mais, em uma batalha silenciosa.
O frio já envolvia seus pés. A ardência tornou-se anestésico.
Acompanhado daquelas pesadas borboletas esvoaçando suas asas pelo ventre. São sempre as mesmas, no ventre dos amantes e dos que ficaram para trás.
Pensava se agora, suas mãos rígidas, não teriam já se tornado no mármore invencível. Penalidade que fosse, por terem percorrido calores tão mais ardentes. Os calores da pele bruta, aquele calor que difere dos outros tantos calores de outras tantas peles. Os calores Daquela pele bruta.
Sabia que esse calor, pele, roçar, sorriso, olhos, encontravam-se ali, pouco abaixo. Mas seus pés já haviam se colado ao verniz do mármore, não venceria mais aqueles poucos degraus, não avançaria mais pela porta de madeira escura, intrometendo sua cópia da chave, artefato este que havia dito estar perdido e que na verdade perdia-se no fundo de uma gaveta, esperando o momento último de desespero. Também não falaria, não gritaria muito menos choraria.
Nesse ponto ria. E como ria!
O saguão ecoou. O silencio voltou.
Estremeceu.
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