sábado, 14 de março de 2009

no peito do anjo caido corre lava, sêmem, fel.
na altura da sua face ele consegue manter a serenidade,  projetar sorrisos tímidos, cativar pelo marfim falso.
pedras ocas de cores vivas e marcantes pendem dos seus ombros, junto com a expressão de grande peso e não tão colorida dos olhos - também vazios.
com as mãos ele tenta incessantemente fazer com que a platéia de narizes vermelhos perceba que ele tem sim suas idiossincrasias, que ele tem sim suas peculiaridades, que ele tem sim seus problemas, como quem se sente absolvido ao admiti-lo.
os gestos amplos e sem sentido passam um sentimento de individualismo, mas a platéia veste a venda justo agora e levanta em um ato de compaixão.
sua boca não existe por opção própria. 
reclamar por ela é seu passa-tempo.
a luz trêmula faz com que ele ora pareça colossal, ora pareça riculamente dispensável.

os tambores soam alto.
os cabelos se encolhem de ansiedade.
e ele fecha a cortina antes do salto.
tem medo, tem medo
esse auto-desgraçado anjo caido.

Um comentário:

Carolina Pires disse...

há tempos não passava por aqui e tinha esqueci o quão tuas palavras causam impacto.

muito bom.